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Vitrais registram pedaços coloridos da história de SP
 

Por Luiz Henrique Fruet - 12/7/2009 - 22h28

"Recortando, juntando e fixando pedaços coloridos de vidro com tiras de chumbo, durante mais de um século, três gerações de uma família de artistas de origem alemã colaborou para escrever, em forma de vitrais, parte da história de São Paulo.

Mario Miranda/Luz
Agora, cabe a uma representante da quarta geração da família Sorgenicht, a artista plástica e professora paulistana Regina Lara Silveira Mello, catalogar e, às vezes, literalmente, recuperar as centenas de obras de arte que seu trisavô, seu bisavô e seu avô, todos de nome Conrado, enfeitaram paredes, torres e tetos de igrejas, repartições, mansões, teatros e até um mercado.

Foram tantos os trabalhos espalhados pelos ateliês dos Sorgenicht, autografados com a marca da Casa Conrado – calcula-se que tenham sido elaborados mais de 600 vitrais –, que é quase impossível o leitor nunca ter avistado um. Quem já comeu um sanduíche de mortadela no Mercado Central, por exemplo, dificilmente terá deixado de olhar para o alto e se deslumbrar com as cenas representando a agricultura.

Gerações de estudantes de direito reviveram momentos marcantes da História do Brasil ao subirem as escadarias da escola do Largo de São Francisco. Igualmente tenores e espectadores do Teatro Municipal. E fiéis de todos os credos rezaram em templos decorados com as histórias representadas em vidros de santos ou símbolos cristãos.

Tese

Professora de artes do Instituto Mackenzie, Regina se viu afastada do avô Conrado III por obra de uma briga da família. Por isso, acabou nem ganhando o sobrenome dos antepassados. Já adolescente, porém, armou a reaproximação, oferecendo-se para fotografar suas obras. Daí a elaborar sua tese de mestrado em artes na Unicamp, em 1996, sobre a história da Casa Conrado, foi um pulo.

Com a experiência obtida nas visitas e conversas no ateliê do avô, dois anos depois ela estava restaurando uma de suas mais importantes obras, os cubos de vidros coloridos que decoram a entrada do Parque da Água Branca, na avenida Francisco Matarazzo. Agora, auxiliada pelo ex-aluno e atual colega professor Ivo Pons, prepara um roteiro com os mais significativos trabalhos da Casa Conrado, para incentivar sua visitação.

Renascimento

Arte milenar, surgida no Oriente no século 10, o vitral teve seu auge na Europa, durante o Renascimento, notadamente nas grandes catedrais. Até a chegada do primeiro Conrado Sorgenicht, em 1874, vindo da região da Renânia, na Alemanha, o Brasil importava seus vitrais da Europa. Em 1889, ele fundava a Casa Conrado, para passar a produzir aqui os vitrais que tanto admirava nas igrejas góticas de sua região natal.

Entre as mais antigas obras conhecidas de Conrado estão a rosácea de 3,5 metros de diâmetro da primeira igreja luterana de São Paulo, na avenida Rio Branco, e a claraboia da igreja de Nossa Sra. do Rosário dos Homens Pretos, no Largo Paissandu, ambas de 1908. Também são da Casa Conrado os vitrais das igrejas católicas da Consolação, de Santa Cecília e de São Judas Tadeu, entre as mais de trinta, apenas na Capital, e outras tantas no interior de São Paulo.

Ecumênica, a Casa Conrado também seria escolhida para fazer alguns dos vitrais das catedrais católica da Sé e a Greco-Melquita Nossa Senhora do Paraíso.

Algumas das mais importantes obras dos Conrado, porém, foram produzidas em prédios profanos. E boa parte delas contou com a colaboração de arquitetos e artistas plásticos. É o caso, por exemplo, do pintor Benedito Calixto, que após desenhar os moldes para a igreja de Santa Cecília, no Largo Santa Cecília, em São Paulo, em 1921, convocou Conrado II, que já trabalhava com o pai, para executar a espetacular claraboia "A Visão de Anhanguera", no Palácio do Café, em Santos, inaugurado com pompa em 1922.

Mais tarde, em 1934, também com base numa obra de Calixto, a Casa Conrado executou o vitral "Os Bandeirantes", com seis metros de altura, na sede da Sabesp de Santos.

Mercado

Outro dos parceiros da Casa Conrado foi Ramos de Azevedo, responsável, no início do século 20, por algumas das mais importantes obras arquitetônicas de São Paulo. Ele convocou os Sorgenicht, por exemplo, para confeccionarem os vitrais do Teatro Municipal (1911), do Palácio das Indústrias (1924), da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (1934), de residências como a do milionário Ernesto de Castro (de 1934, e que hoje é o centro cultural Casa das Rosas, na avenida Paulista), e do Mercado Municipal.

Para elaborar os nove painéis figurativos do Mercado, cada um com 5m de largura e mais de 3m de altura, porém, Conrado II não se valeu de nenhum artista. "Ele pegou o filho Conrado III, meu avô, uma máquina fotográfica e embrenhou-se pelas lavouras do interior paulista", conta a neta Regina. "Queria buscar referências do trabalho no campo, dos animais, da colheita do café, enfim, cenas da agricultura, da avicultura, da pecuária, para depois criar os vitrais."

Foi com base nas fotos, e sob orientação de Conrado II, que as noras Lúcia e Laura (esta, avó de Regina) fizeram os desenhos – ou os "cartões" – que deram origem aos vitrais. No total, foi um processo que durou quatro anos, mas que parecia não ter fim. Pois, quando estava tudo pronto para a inauguração, em 1932, estourou a Revolução Constitucionalista.

Tiros

Os vitrais já estavam no lugar, mas o prédio foi usado como acampamento para as forças paulistas. Enquanto esperavam ser enviados para o campo de batalha, os soldados passavam o tempo usando as cabeças dos personagens como alvos. Assim, terminada a revolução, Conrado III, que havia se alistado no batalhão Fernão Dias Paes Leme, teve que restaurar boa parte do trabalho. O Mercado pôde, enfim, ser inaugurado, em 1933.

Nessa época, Conrado III já era amigo do pintor Antônio Gomide que, ao lado da irmã, Regina, e do cunhado, John Graz, é considerado um dos introdutores do estilo art-déco no Brasil. Além de vários projetos de vitrais para igrejas e mansões, Gomide desenhara os cartões para um dos mais importantes trabalhos da Casa Conrado, nos portais do Parque da Água Branca: cenas de boiadas correndo e homens e animais no campo.

Quando se propôs a restaurar o conjunto, em 1999, a professora Regina valeu-se dos cartões com os desenhos originais de Antônio Gomide, que estão nas mãos de colecionadores, para acertar as cores dos mais de 10 mil cacos de vidro que formam os vitrais.
As ligações de Conrado III com o mundo das artes acabariam se consolidando com a execução do gigantesco painel de 26 metros de largura por 10 metros de altura no saguão de entrada da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), no Pacaembu.

Bardi

A obra, idealizada por Pietro Maria Bardi, também criador do Museu de Arte de São Paulo (Masp), é um conjunto de quadrados de 1 metro de lado com criações de 56 pintores modernistas brasileiros, de Tomie Othake a Cândido Portinari, de Lasar Segall a Tarsila do Amaral ou Djanira.

Na preferência de Conrado III, porém, de acordo com a neta Regina, nada batia a reprodução de "A Veneração de São Vicente", a obra máxima do pintor renascentista português Nuno Gonçalves. O trabalho ocupa as 34 janelas, de 6 metros de altura, do Salão Nobre da Beneficência Portuguesa de São Paulo, e foi executado em 18 meses, entre 1954 e 1955.

Sua restauração, em 1985, foi o último grande trabalho de Conrado III. A Casa Conrado já não existia mais. Falira em 1965, mas o velho artesão, aos 83 anos, ainda subia em andaimes para retocar os vitrais que fizeram a merecida fama da família Sorgenicht."

Fonte. http://www.dcomercio.com.br/Materia.aspx?id=21785&canal=2  


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