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Vidro está de volta às embalagens
 

Owen-Illinois, dona da marca Cisper, vende unidade de resina PET no mundo e deixa de produzir garrafas plásticas em Sorocaba (SP)
Carlos Franco

A americana Owens-Illinois vendeu em outubro para outra americana, a Graghan, por US$ 1,2 bilhão, sua unidade mundial de produção de resina PET, usada na fabricação de embalagens com grande consumo na indústria de bebidas, em particular refrigerantes. Agora, a fábrica da Owen-Illinois no Brasil que fabricava garrafas PET, em Sorocaba (SP), deixa de produzí-las e passa a fabricar apenas tampas plásticas para garrafas e frascos de vidro.
O dinheiro da venda para a Graghan será aplicado integralmente no aumento da produção de vidro, com a aquisição da européia BSN por US$ 1,5 bilhão. Há 12 anos, quando clientes como a Coca-Cola começaram a usar PET, a Owens-Illinois, que responde por 50% das embalagens de vidro consumidas no planeta, decidiu entrar nesse mercado para não perder clientes globais como a Coca-Cola. Só que, agora, com as cotações em alta do petróleo e o retorno do uso de embalagens de vidro em segmentos premium e populares de bebidas e alimentos, decidiu concentrar seu foco no vidro.

A multinacional tem unidades de produção em 21 países e, no Brasil, controla a Cisper, dona de uma fatia de 45% do mercado brasileiro de embalagens de vidro, com produção de 900 mil toneladas por ano e uma capacidade de 1,5 mil toneladas diárias. Só que o nome Cisper desapareceu da identidade corporativa da empresa em janeiro e passou a intitular apenas a linha de produtos de mesa, como copos e pratos. São produtos que concorrem com a linha Marinex, da Saint Gobain, e Nadir Figueiredo. Nos altos fornos da fábrica em Ermelino Matarazzo, em São Paulo, onde está a sede da empresa, desde janeiro a nova identidade já está estampada onde antes se lia Cisper.

Com faturamento previsto de US$ 6,4 bilhões este ano, a empresa joga seu foco no vidro. No Brasil, o faturamento, que foi de US$ 160 milhões em 2003, deve chegar a US$ 200 milhões este ano. Um resultado e uma previsão que dão fôlego aos planos do presidente da Owens-Illinois do Brasil, José Antonio Ramos Lorente, de 48 anos, há 23 anos na empresa, onde começou como estagiário.

Da área de produção para a área comercial, o engenheiro formado pela Faculdade de Mogi das Cruzes e nascido no bairro da Penha, na capital paulista, onde os pais ainda moram, bateu na porta da Cisper e foi entrevistado pelo presidente. Uma rotina que ele faz questão de manter em relação àqueles que pedem estágio na empresa. "Isso me deu estímulo e sei que é importante para os nossos 1,5 mil funcionários", diz.

Lorente também tem orgulho dos números grandiosos da empresa, que de 1997 a 2004 investiu US$ 300 milhões para ampliar a sua produção. Nem a perda de clientes tradicionais do vidro, como os fabricantes de requeijão em copo e a famosa maionese Hellmann's parecem inibir seus planos e projeções para o futuro.

"Pouca gente sabe, mas ao abandonar as embalagens de vidro, os fabricantes de requeijão tiveram de tirar essa denominação do rótulo porque o plástico não permite o envase em altas temperaturas e reduz o tempo de validade do produto". Ele faz questão de dizer que é insuspeito ao fazer tal afirmação porque até o mês passado, a Owens-Ilinois produzia o PET e o plástico de dupla camada que é usado em alimentos.

Da Helmman's ele exibe a queda de mercado no México, depois que o produto passou a ser envasado em plástico. Foram 3,5 pontos porcentuais, para 20% do mercado, enquanto a concorrente McCormick, embalada em vidro, tem uma participação de 51,6% nas vendas aos mexicanos.


RETORNÁVEIS

Lorente não esconde a satisfação ao falar da Coca-Cola que, para reduzir o custo do produto ao consumidor, voltou a usar as garrafas retornáveis de vidro, com a meta de chegar a 30% das vendas - hoje é de 10% essa participação em embalagens de 200 ml, 600 ml, 1 litro e 1,25 litro. A garrafa conhecida como "Mae West", por ter um bustiê onde se lê Coca-Cola, mais volumoso que o corpo e o pescoço, é um dos ícones da Coca-Cola e uma das garrafas que o presidente da Owens-Illinois gosta de exibir ao visitante da fábrica, que pode acompanhar a sua feitura, quando as gotas de vidro descem para os compressores a 1,5 mil graus. Depois são resfriados e de um galpão vão para outro, onde recebem o acabamento em tinta.

Não é só a Coca-Cola que faz a alegria de Lorente. A AmBev, de 2003 para este ano, ampliou de 72% para 77% o volume envasado em garrafas de vidro. "A long neck (garrafa de pescoço longo) tem se mostrado uma opção que agrega valor ao produto e as cervejarias têm ampliado o seu uso." A Bohemia, com novos lançamentos como Weiss e Ale, também dá seu empurrão no mercado de vidro, além daquelas artesanais, como Baden-Baden, de Campos do Jordão, e Eisenbahn, de Blumenau. Mais: alguns produtos que querem sofisticação têm buscado embalagens de vidro, diz Lorente, certo de que, como na Europa, em breve alimentos com ervilhas, milho e salsichas cheguem ao vidro, como são vendidos na Europa. "A transparência trabalha a favor do vidro."

Com seis fábricas no País, a Owens-Ilinois tem apenas 72 funcionários do total de 1,5 mil em postos administrativos. Com vendas de 420 mil toneladas de embalagens de vidro no ano passado, a empresa conseguiu 140 mil toneladas por meio da reciclagem.

E se o plástico, no qual o PET era o destaque, respondia por 35% do resultado, a empresa não tem dúvidas de que o vidro voltará a ganhar importância. "O futuro é o vidro", diz Lorente, afirmando que os concorrentes também estão investindo nessa direção. "É uma questão de bom gosto, mesmo que muitos queiram provar o contrário. Afinal, quem não se lembra, como uma coisa boa, do leite que chegava em casa nos frascos de vidro?", pergunta. Se depender de Lorente, eles voltam. "As linhas de produção estão prontas". Até para o famoso frasco azul do Leite de Magnésia Philips, que deu fama à Cisper.



Mercado de R$ 3,3 bi no País
Embalagens detêm um terço da receita do setor de vidros
Carlos Franco

O mercado brasileiro de vidros movimentou R$ 3,3 bilhões no ano passado, dos quais R$ 1,03 bilhão em embalagens - 31,1% do faturamento do setor. Já os vidros planos - os mais consumidos pela indústria automobilística - responderam por 29,1% do negócio e os vidros técnicos por 26,9%, entre os quais os usados pela construção civil, com filtragem de calor. Os domésticos, nos quais se incluem os copos e pratos, responderam por 12,9% do faturamento da indústria no ano passado.
Com investimento de US$ 107,2 milhões em 2003 e US$ 122,9 milhões previstos para este ano, a indústria do vidro, segundo a associação do setor, a Abividro, emprega 12,5 mil pessoas e tem apresentado acentuado crescimento nos últimos anos, o que estimula os investimentos.

A Cebrace, joint venture entre a Pilkington e a Saint Gobain Glass, por exemplo, inicia a produção este ano de uma nova unidade de vidros planos em Barra Velha (SC), com capacidade de produção de 200 mil toneladas por ano, visando a demanda do Mercosul. Na área de embalagens, os investimentos também prosseguem. A Nadir Figueiredo moderniza permanentemente o seu parque, assim como a Cisper, hoje Owens-Illinois do Brasil.

Uma das metas do setor, segundo o superintendente da Abividro, Lucien Bernard Mulder Belmonte, é ampliar a participação da reciclagem nessa cadeia industrial. "Estamos fazendo campanhas para coleta seletiva de vidro, e isso começa a surtir efeito." No ano passado, esse mercado movimentou R$ 65 milhões, com 45% do caco de vidro usado como matéria-prima, mas há espaço para crescimento. A expectativa é de 15% este ano.

Os povos da Mesopotâmia e os egípcios já conheciam técnicas rudimentares de fabricação de vidro 27 séculos antes de Cristo. No sarcófago do lendário Tutancâmon foram encontradas jóias e adornos em vidro. Produzido a partir da areia e da barila em temperaturas elevadas, o vidro se propagou pelo mundo e se tornou uma das primeiras embalagens de bebidas e alimentos.



Garrafas deram início ao Monteiro Aranha
Carlos Franco

Os engenheiros Olavo Egydio de Souza Aranha e Alberto Monteiro de Carvalho fundaram em 1917, no Rio de Janeiro, uma empresa para a produção de vidros. O passo inicial foi a aquisição de uma máquina inventada pelo americano Michael J. Owens, que permitia a produção em série de garrafas. O alvo dos sócios, que viriam a constituir o grupo Monteiro Aranha, eram as empresas que importavam garrafas de vidro, a exemplo da Brahma e dos produtores de leite - quando o produto chegava às casas com as embalagens retornáveis de vidro.
Como tinha interesse em encontrar um fornecedor local, o então presidente da Brahma Heinrich Künning, fez uma encomenda de 100 mil garrafas, em 1918, aos dois engenheiros, que assim ganharam escala. Uma relação comercial que se mantém até hoje, com a AmBev, empresa que surgiu da fusão de Brahma e Antarctica em 1999 e que figura na lista dos dez principais clientes da Cisper.

Foi inclusive a expansão das encomendas de garrafas que levou a dupla a inaugurar uma fábrica em São Paulo, em 1947, passando a atender também à Antarctica. A partir desse momento, a empresa passou a se chamar Companhia Industrial São Paulo e Rio de Janeiro, que resultou na sigla Cisper.

Remonta, porém, a 1946, um dos maiores sucesso da Cisper: os frascos de vidro azul do Leite de Magnésia de Phillips, que se tornaria popular em todo o País. Em 1962, a Cisper filia-se à Owens-Illinois Inc. garantindo acesso às mais avançadas tecnologias de produção de vidro no mundo. A Owens-Illinois, com sede em Toledo (Ohio/EUA) adquiriu 80% da Companhia e o restante permaneceu com o grupo Monteiro Aranha. Atualmente a Owens-Illinois está presente em mais de 30 países, e é responsável por 50% das embalagens de vidro produzidas no mundo.

Hoje, a Cisper é formada por 5 fábricas, que produzem mais de 350 itens para diversos segmentos, incluindo embalagens e utilidades domésticas. A mais nova fábrica, na Amazônia, produz equipamentos de moldagem para a própria empresa, além de exportá-las para toda a América Latina.


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